terça-feira, 31 de julho de 2012

Contigo, eu dancei. Pra você, eu danço.

Danço. Enquanto você me olha eu timidamente danço e, por dentro, quero. Quero-te em meus braços, entrelaçados aos teus, te provando com beijos o que o meu olhar já grita. E isso é o que mais pulsa em mim: o querer-te. Teu olhar enigmático que a todo tempo pede pra que te invada, que te indague e, gritando, que te traga. Olhar que, na medida em que esconde, quer que eu descubra. Teu beijo entrega, afaga e, com os lábios, abraça. Tuas palavras envolvem, confundem, cortam e fascinam. Tua voz que, ao penetrar em meus ouvidos, como gelo percorre a alma arrepiando cada órgão do corpo. Você. Eu. Nós.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Interruptor de achados

Ele hoje resolveu dormir no escuro. Evaporado foi o medo de não encontrar. Afinal, o que poderia ser procurado se o único sentir que possui não pode ser perdido? Escureceu-se.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Aos Joãos do mundo que sentem e não são

João tinha a alma maior que o corpo (ou seria o corpo menor que a alma?). Caminhava. Tropeçava. Caia. Machucava. Não se importava. Observava. Não se encaixava. Pelas ruas, não conseguia. Mas queria. Sabia: aquilo que sentia nele, não sentia nas pessoas. Outros sorriam sincero, ele apenas sorria. Bebia, fumava, estragava. Procurava. E, principalmente, aguardava. Esperava pelo dia que poderia sincerizar seu riso, como o resto.
Até que um dia, com muitos retalhos no corpo e a alma já úmida, concebeu: aquilo que era nas pessoas, não era nele. João tinha carne pequena pra pouco ser. João tinha espírito grande pra muito sentir. Reconhecendo em si todos os sentimentos do mundo, aceitou. Viveu. E, vivendo, viu seu corpo crescer. Sua alma, por vez, coube. Não deixou de sentir, mas passou a ser. João, então, sorriu sincero.

sábado, 27 de agosto de 2011

Gotas de você

       Antes, quando ainda respirava sua alma, sofria pela falta de você. Hoje, sou sofrimento e sou por vazio. Sei que, no fundo de minhas gavetas reviradas, a lembrança de seus lábios imanizados ainda planta raiz e por muito, quiçá para sempre, morará. Mas seria amor? Não sabia responder e essa falta de resposta secou-me a boca. Com a mão dolorida (e o que não dói?) abri uma garrafa e, quase sem pensar, consenti que os goles se misturassem e lavassem meus pensamentos. Ligeiramente fechei os olhos e, numa espécie de cena mais veloz ainda, vi-te voando e espontaneamente apanhando-me do fundo. Em teus olhos, sentia não só a tamanha profundidade que se fazia daquele momento como a reciprocidade espelhada em nossas feições, hipnotizando-nos de forma a esquecer de quaisquer resquícios que não nos fosse. Violentamente ergo as pálpebras como quem quer (e, mais do que quer, precisa) livrar-se do que vê. A fim de fugir do impertinente redemoinho que me sugava, esvazio a garrafa. O líquido, fosse ele vindo da garrafa ou dos olhos, afogava e determinava minha verdade universal: ao chegar ao fundo do poço, no fundo do copo, sempre buscarei você. Você, minha soma inconsequente sempre insistindo na “anfivida” de ora encarnar minha esperança e futuro, ora minha perdição e angústia.
       Mas, se no fundo do copo te encontro, como faço para te sumir? Sinto inveterado em mim o vício. Se o vício é você ou o copo, já não me pertence a certeza. Como tudo no mundo, não me pertence. Quase tudo, pois verifico a última gota no fundo do copo - ou do poço? - e é nessa derradeira que me encontro agora.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Pedalando no páramo

       Já é praxe, eu pensava. Introduzo o parágrafo sendo alguém, finalizo-o sendo outro. Durante o momento em que sou linha e costuro no tecido escolhidas palavras para acrescer aos meus internos registros, milhares de sentimentos ecoam em mim de forma revoltante. Querem sair, agir, modificar tudo que um dia fui e o que pretendo ser. São sentimentos que continuo sendo incapaz de traduzir - quando isso acontecer, expulsá-los-ei de mim e desabafarei: ajam! Foi quando, irritado com os borrões no papel e na vida, rapidamente levantei. Indo em direção a janela, meu olhar foi desviado ao espelho e por um breve momento analisei-me. Minha mente estava inquieta. Debrucei-me no para-peito e meus olhos foram fechados pela leve e intensa brisa que entranhava não só em minha casa como em mim. Minha casca, definitivamente, discrepava de minha essência. Isso angustiava-me. “A resposta é você! É você, meu caro!” Quando abri os olhos, ainda pude avistar o homem que gritava pedalando sua bicicleta no final da rua. Ele ainda repetiu, em meio a risadas “É você!”. E, sem mostrar o rosto, se foi. Voltei-me ao espelho e percebi que eu poderia ser quem eu quisesse, desde que fosse.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Haurindo sonhos

        Sua prova permanece em cima da mesa de estudos. Sempre que busco algo especial, toco-a e quase que devoro com os dedos. Como quem procura algo, e sabe que não mais encontrará, cheiro-a por inteiro. O perfume que antes parecia durar para sempre já evaporou. Evaporou da mesma forma que devo ter sumido da sua vida: permanecendo alguns dias em pensamento e sendo abafada por acontecimentos mais interessantes. “Isso aconteceu mesmo? Já nem lembro mais” você se perguntará com indiferença quando, por algum motivo, lembrar nossos momentos. “Aconteci” eu responderei. “E eu ainda possuo a prova. Já sem cheiro -  hei de admitir; Mas ainda esperançosa quanto a sua volta”.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Sobre os ocos fogos tradicionais

       Deitado em minha cama, no escuro, ainda conseguia ouvir os alegres fogos de artifício (ou seriam fogos de alegria artificial?). Na rua, centenas de jovens almas de branco festejavam “o novo”, abraços sinceros ou não enfeitavam a noite barulhenta e champagnes eram desperdiçadas a troco de alguma coisa que as almas velhas, como a minha, estavam em casa tentando descobrir o que era. “Eu poderia estar lá” pensei de modo forçado. “Eu quero estar lá?” Não. Eu já quis; naquele momento, entretanto, não queria mais. “Por que estão lá?” minha mente se confundia entre a calma do sono e o transtorno da insônia. A vozearia externa aos poucos se dispersava entre o tique-taque do relógio e a minha própria consciência que ainda processava. Quando finalmente senti o peso sobre minhas pálpebras, cedi. Permiti que elas fechassem e levassem-me para longe da balbúrdia combinada. “De que adianta” - ainda ponderei minhas últimas palavras – “De que adianta comemorar a inovação se dentro de si a mudança não acontece?”. Dormi.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Eulalia: Aleluia, Eulália

       Sendo ontem, no mês passado ou mesmo sem ter acontecido, eu lembraria. Sua eulalia me hipnotizava de tal maneira que eu não falava mais nada – e não queria falar. Emudeci proposital e completamente encantado. Não sei se o que dizia era um despejo de todo o seu conhecimento adquirido na encantadora vida ou apenas uma amostra do que andava percorrendo sua mente e gastando o seu tempo. Não importa: se tudo fosse apenas invenção, já me bastava.

sábado, 11 de dezembro de 2010

Foi, é, ou será?

        Por muito tempo vivi de rotinas e certezas. Você, porém, quebrou-as. Surpreendeu-me colocando em jogo todos os sentimentos por mim escondidos durante felizes (entretanto incompletos) meses. Talvez agora, passado esse exato tempo, tenha nascido o fruto do que construímos quase sem querer.
Dói que sejamos tão incompatíveis externamente quanto sincronizados mental e interiormente. Poderíamos viver na suposta felicidade e sintonia eterna se tantos fatores externos dos quais dependemos não nos impedissem disso. Bandeira, em um dos seus poemas tísicos mais famosos, lamentou: “A vida que poderia ser sido e não foi”; Tezza, em um verso realista apresentado no seu romance-biográfico, completa e complementa: “Nada do que não foi poderia ter sido”. Esse é o dilema que, a partir do nosso desabafo mútuo, passei a querer desvendar. Você consegue ser o que minha razão nunca quis e o que meu coração pede. Deveria eu aceitar que nada pode ser feito ou prantear pelas discrepâncias?

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Entre cores e batidas cardíacas

       Por um longo tempo vivi sozinho. Não permitia nenhum tipo de contato mais profundo, meus pensamentos eram compartilhados tão e somente comigo mesmo, e acabei inicialmente escolhendo o silêncio como o meu melhor cúmplice. Nessas noites, quando quieto me rendia a cama, por muitas vezes tentei abafar até meus próprios pensamentos para tentar ouvir se meu coração ainda batia. Ainda e mais um dia. Demorei a perceber que estava entregue à melancolia. Era belo o preto e branco, eu percebia isso... Mas conseguiria eu suportar a tortura do dia-a-dia gritante, da pressão alheia, do meu próprio reconhecimento? Enganei-me ao imaginar que talvez fosse melhor esconder meu desejo de isolamento e, mesmo contrariado, retornar a vida do movimento.
       Rendi-me então e fui pego de surpresa. Havia todo um caminho desenhado para que eu me desprendesse do passado solitário e eu, já não sei se feliz ou infelizmente, embarquei. A angústia, minha velha conhecida dos tempos antecedentes a minha época mental, voltou a correr em minhas veias. Seria esse um ciclo vicioso? Era melhor, como nos medíocres e agitados tempos, não pensar nisso. Tormentas, dúvidas e paradoxos que talvez fossem sem sentido, estavam, com certeza, sentindo. Se antigamente eu fazia silêncio para ouvir se meu cansado coração ainda batia, hoje precisava falar alto para abafar as barulhentas batidas cardíacas.

 
       Escrevo agora já cansado. Confesso ter me acostumado com antiga rotina: Por mais que do lado de fora de minha vida nada acontecesse, são incontáveis quantas voltas e viagens eu fazia sozinho em minha mente. Agora, já não podia mais: tinha cedido a desviar meu pensamento aos outros, me rendendo ao mundo da inquietação externa. Talvez eu perca o pouco que conquistei aqui fora e retorne ao meu quarto. A janela estará, pois, sempre aberta... Sair de novo, entretanto, não sei se devo. Apesar da experiência colorida e cheia de barulhos, dentro de mim ainda paira a não-exposição, os pensamentos sozinhos, o silêncio, e a falta de cor.