quinta-feira, 11 de abril de 2013

Itinerário

Chego e enterro minha presença. Vejo a vida (dos outros) acontecer ao redor. Passa um, passam dois. Um suspiro. Pensamento implausível. O asfalto, ao meu lado, abaixo, moldado à tantas atrasadas vidas  rolando em suas costas. Conversas paralelas, olhares perdidamente determinados ao oco destino. Alguns vão, outros seguem aguardando. Passam três, quatro e cinco. Todos vão. Repassa o primeiro. E o segundo. E a vida. Só fico eu, contraditoriamente enterrado na ideia mais livre que existira, e um morador de rua, já residente daquele úmido canto, acompanhado de seu saco-cheio-de-nada. Ele me olha. Mexe em sua sacola, revira seus pertences (e o que pertence?). Re-olha-me. Levanta as sobrancelhas e solta. "Moço." Suavemente desloco meus olhos ao homem. "Que mal te pergunte, que ônibus espera? Já faz horas que tá aí parado e tudo que tinha pra passar já passou. Umas três vezes" Sem mostrar os dentes nem as lágrimas, sorrio. "Eu espero qualquer um que não passe aqui." E fiquei.

quarta-feira, 6 de março de 2013


PS: Minha pele ainda implora por tuas unhas e dentes.


 PS: Meu corpo ainda estremece com cada barulho de carro na minha rua quase deserta, desejando que seja tu a estacionar em frente à minha janela.

terça-feira, 5 de março de 2013


PS: Meu peito ainda espasma quando toca em qualquer outra coisa que não seja teu corpo.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Naufragado campo magnético


         Baixo a cabeça e respiro fundo: cada pouco de ar que entra comprime ainda mais a dor no peito. O som da água moldando-se ao casco do barco entoava o maior silêncio já nos presenciado. E gostávamos de silêncio. Mas não agora. Não aqui. Espio a janela e a vejo sentada lá fora, de frente para o mar, de costas para mim. O vento corrente balança seus cabelos. Gostaria de ser essa brisa, penso, para guardar temporariamente enrolados os fios dourados entre meus dedos. Sempre temi que esse momento chegasse. A vida o trás, não há dúvida disso: ou nada ou afoga. Ou direciona o barco, ou naufraga. Ouço nesse momento os passos timidamente decididos vindo em minha direção. Ela me mira suas espelhadas íris que refletem minhas pupilas vazias de certeza. A desesperada desorientação me transborda pelos olhos: é como se no lugar do coração, eu tivesse uma bússola; é como se no lugar do cérebro, ela tivesse um imã. Crash. Apóia, então, suas mãos em meus ombros. Com um rápido movimento com o olhar, aponta o mar e eu entendo. Simplesmente não importa. Nesse momento, só tínhamos um ao outro. Nenhum de nós sabe dirigir um barco e, no entanto, já estamos navegando em alto mar faz tempo. A vida em uma noite, a noite em uma vida. We’re safe tonight. 

Do fim ao início. Do início ao nada.

         Janelas abertas, o sol se pondo. Olho, pela última vez, minha cama desarrumada, como sempre. Tanto agüentou minhas dores, e agora, pela primeira vez, anoiteceria e ela não precisaria sustentar o peso de minha dor. Bato a porta em minhas costas com os bolsos vazios. Ruas vagas. Casas deixadas para trás com portas abertas. Não há ninguém. Caminho em direção ao nada, automático e sem parar, como quem rebobina uma fita cassete. Estou voltando ao início, ao escuro, rebobinando a vida. Não é o fim que chega, somos nós que findamos.

 (Depoimento escrito para 13ª edição da Revista Travessa em Três Tempos, disponível no site http://revistatravessaemtrestempos.blogspot.com.br)

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

A cadeira que nunca sentarei

         O sol estava se pondo e, apesar do verão do dia 21 de dezembro,
nesse fim de tarde me envolvia um vento gelado. Sentado sob a pedra que
muitas vezes sustentou minhas dores, eu observava Anita inquieta, em minha
frente, caminhando e rindo de um lado para o outro. “Você acha mesmo?” ela
perguntava entre risadas “você acha mesmo verdade essa história de fim?”
Não importava. “Vamos lá, levanta. Você me trouxe para cá, e não adianta me
olhar com essa cara de desentendido, eu sei que esse é o seu lugar preferido
no mundo. Você só vem para cá quando a coisa é mesmo séria.” Paris. Meu
lugar preferido no mundo sempre foi uma cadeira de um bar, no inverno, numa
ruela em Paris. “Você nunca foi a Paris” Dessa vez, calei, apenas encontrando
nossos olhares. Preferir o futuro ao presente: cheque-mate. “Apaga esse
cigarro e levanta dessa pedra logo. Hoje é sexta-feira, vamos encher a cara e
nos amar até o sol nascer. E você vai ver, ele vai nascer.” Tirei do bolso meu
sempre acompanhante cantil de uísque e o joguei, pela grama, em direção
aos pés de Anita, enquanto, com a outra mão, acendia outro cigarro. Que ela
bebesse o quanto quisesse. Que nos amassemos aqui, em cima dessa pedra.
Mas eu não sairia daqui. Não hoje. “Eu odeio. Eu odeio você e essa mania de
ser você mesmo.” E sentou-se ao meu lado, apoiando a cabeça na mão direita
e as idéias no céu.

         Deitado agora sob cobertores que suavemente cobriam a grama,
meu peito acolhe o sono de Anita. Eu já gostei de muitas pessoas. Amei
muitas pessoas. Até ela chegar. Anita não entrou na minha vida. Entrou em
mim. Eu não a percebi, mas demorou apenas algumas semanas para que,
feito vírus, estivesse instalada em minhas células. Cada nova célula produzida
vem com um pouco de Anita. As atrasadas estrelas ainda estão ali, intactas,
iluminando o rumo de meu labirinto mental. É o fim. É o término de toda essa
dor escura que escorre pelas veias e ruas e inunda qualquer indício de sorriso
ou balão de criança voando pelo céu. É o silêncio que deixará de ser abafado
pelas batidas cardíacas. É, finalmente, o antídoto que estourará essa bolha
de veneno na qual respiramos e somos obrigados a sobreviver. O fim de tudo
que não nos é. Noto que Anita está acordada, ela roça o nariz em minha barba
mal feita, como que me chamando, e balbucia qualquer ruído. Então, com as
mais interrogativas íris que já vi, indaga-me sobre o que ela mesma sempre
soube. “Pra sempre é muito tempo, não é?” É. Mas meu fim é dela. Seu fim sou
eu. E será assim sempre. Dormimos.

(Texto escrito para 13ª edição da Revista Travessa em Três Tempos, disponível no site http://revistatravessaemtrestempos.blogspot.com.br)