domingo, 5 de maio de 2013
Roleta nossa de cada dia
Acordei sem saber o que faria, me vesti sem saber pra quem,
me dirigi a te encontrar sem saber se realmente te descobriria. Você era
mistério. Mistério exigindo resposta. Um ponto de interrogação que,
sinceramente, não planejei desvendar. Apenas fiz. E faço até hoje. Entre
olhares de superestimação e falso desinteresse, você me pediu pra fechar os
olhos. Eu verdadeiramente não esperava encontrar, ali, numa tarde desproposital
de inverno, o melhor poema por mim já lido: teu beijo. Todos os escudos e
barreiras que passei meses, dia pós dia criando, foram vencidos. Não que eles
não estivessem ali: parte deles está até hoje, mas simplesmente desistiram
de tentar proteger o que se convenceu a ser invadido. Se eu soubesse que aquele enigma loiro de jaqueta, óculos e touca, tomando café e lendo “Cândido ou o
otimismo” do Voltaire me causaria tanta submersão em dor, segredo, gozo e
sentir, nunca teria fechado os olhos. Quem seria agora a escrever então?
Continuaria não me sendo e deixaria de te ser, seguiria seguindo sem nunca ter
pra onde seguir de verdade. Foi como se, durante todo esse tempo órfã de ti, eu tivesse ficado na caixa dos pinos esperando alguém simpatizar com a minha cor e jogar-me no tabuleiro. Você brincou de apostar na minha profundidade e,
sem querer, colocou-me no jogo despida, sem égide ou lança. Obrigada.
quinta-feira, 18 de abril de 2013
Você em mim
Quero noites intermináveis
Quero noites que se emendem ao sol e sempre
Quero teu beijo a cada dor
Teu lábio suavemente tocando o meu
Agressivamente mordendo o meu.
Quero teus dedos despretensiosos deslizando pelo meu braço enquanto qualquer coisa acontece
Teus dedos maliciosamente deslizando pelas minhas costas enquanto a gente se deseja
E teu abraço seguro no sim e no sempre
Teu lábio suavemente tocando o meu
Agressivamente mordendo o meu.
Quero teus dedos despretensiosos deslizando pelo meu braço enquanto qualquer coisa acontece
Teus dedos maliciosamente deslizando pelas minhas costas enquanto a gente se deseja
E teu abraço seguro no sim e no sempre
E teu peito a cada lágrima
E tuas mãos a cada queda
E você a cada vida.
Quero a sinceridade do toque
Quero a súplica do olhar
E o sorriso que antecede o riso.
Quero a entrega sem delonga
O contato sem medida
O encaixe arrepiante
O amor errônea e lindamente incondicional
Quero você
De volta
Pra mim.
Como sempre foi.
E se a eternidade pode durar apenas um segundo
Que me perdoe o coelho,
Essa eternidade é pouco.
Tu tens o pior e o melhor de mim
E não há jeito mais sutil e verdadeiro pra dizer que tu
simplesmente me tem.
Pequei por querer-te demais
E muito pra mim
E sempre muito
E demais em mim.
Quero-te meu
Mas para que seja meu deve ser nosso
E para que seja nosso é preciso ser também teu
Perdoa-me. Todo meu erro é amor.
E todo amor é teu.
Agora.
Ontem
Ontem
E amanhã.
Sem mais pausas.
Vem.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Itinerário
Chego e enterro minha presença. Vejo a vida (dos outros) acontecer ao redor. Passa um, passam dois. Um suspiro. Pensamento implausível. O asfalto, ao meu lado, abaixo, moldado à tantas atrasadas vidas rolando em suas costas. Conversas paralelas, olhares perdidamente determinados ao oco destino. Alguns vão, outros seguem aguardando. Passam três, quatro e cinco. Todos vão. Repassa o primeiro. E o segundo. E a vida. Só fico eu, contraditoriamente enterrado na ideia mais livre que existira, e um morador de rua, já residente daquele úmido canto, acompanhado de seu saco-cheio-de-nada. Ele me olha. Mexe em sua sacola, revira seus pertences (e o que pertence?). Re-olha-me. Levanta as sobrancelhas e solta. "Moço." Suavemente desloco meus olhos ao homem. "Que mal te pergunte, que ônibus espera? Já faz horas que tá aí parado e tudo que tinha pra passar já passou. Umas três vezes" Sem mostrar os dentes nem as lágrimas, sorrio. "Eu espero qualquer um que não passe aqui." E fiquei.
quinta-feira, 28 de março de 2013
quarta-feira, 6 de março de 2013
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Naufragado campo magnético
Baixo a cabeça e respiro fundo: cada pouco de ar que entra
comprime ainda mais a dor no peito. O som da água moldando-se ao casco do barco
entoava o maior silêncio já nos presenciado. E gostávamos de silêncio. Mas não
agora. Não aqui. Espio a janela e a vejo sentada lá fora, de frente para o mar,
de costas para mim. O vento corrente balança seus cabelos. Gostaria de ser essa
brisa, penso, para guardar temporariamente enrolados os fios dourados entre
meus dedos. Sempre temi que esse momento chegasse. A vida o trás, não há dúvida
disso: ou nada ou afoga. Ou direciona o barco, ou naufraga. Ouço nesse momento
os passos timidamente decididos vindo em minha direção. Ela me mira suas espelhadas
íris que refletem minhas pupilas vazias de certeza. A desesperada desorientação
me transborda pelos olhos: é como se no lugar do coração, eu tivesse uma
bússola; é como se no lugar do cérebro, ela tivesse um imã. Crash. Apóia, então, suas
mãos em meus ombros. Com um rápido movimento com o olhar, aponta o mar e eu
entendo. Simplesmente não importa. Nesse momento, só tínhamos um ao outro. Nenhum
de nós sabe dirigir um barco e, no entanto, já estamos navegando em alto mar
faz tempo. A vida em uma noite, a noite em uma vida. We’re safe tonight.
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